LIBERDADE
Subí as ladeiras de Carmo da Ponte sem sentir as pernas, arrastadas pelos pés teimosos e indiferentes à coluna dobrada e aos tornozelos inchados. Nas mãos, a sacola plástica com as compras feitas no mercadinho ao lado da ponte. E a inevitável garrafa de aguardente.
O calor rolava pela minha testa, deixando pequenos córregos ao longo do rosto. A camisa, úmida, ostentava duas enormes manchas sob os braços e colava-se nas costas e na barriga avantajada.
Parei para esquivar-me do moleque que corria ladeira abaixo e apreveitei para recuperar o fôlego e desembaçar o olhar lacrimejante.
Na porta de casa, atrapalhado com as chaves, tremia levemente ao penetrar a fechadura com a chave indiferente a tudo. Abrí a janela da sala, fechei a cortina e comecei a tirar a roupa que ia se amontoando no chão. Passei a cueca úmida pelo sexo que fingiu dar um sinal de vida e aquietou-se, grato pela carícia não intencional.
Deitei-me no sofá manchado e gasto pelo uso, tomei um gole da branquinha e acendí um cigarro entre acessos de uma tosse seca que me acompanhava há anos.
Através da fumaça, ví Maria Amélia saindo, nua, do banheiro. Os longos cabelos negros desciam, molhados, pelas costas morenas. Sob seios fartos e a barriga lisa, com uma pequena cicatriz lateral, o triângulo negro e generoso, que tantos prazeres me proporcionou.
O doce perfume do sabonete atingiu-me no mesmo momento em que ela, com seu jeito dengoso, deitou-se sobre mim no sofá. Não nos beijamos. Trocamos apenas um tímido sorriso que deveria iniciar as cenas iminentes. Mas antes que a enlaçasse com meus braços, ela sussurrou, carinhosa, que cansara de esperar por mim e viera buscar-me. Retribuí com um sorriso cansado, fechei os olhos turvos e entreguei-me a ela. Incondicionalmente.
Ainda deitada sobre meu corpo, Maria Amélia me abraçou e, protegido por aquele amoroso abraço, sentí-me levitando.
Não abrí os olhos. Apenas permití que aquela doce sensação de liberdade e leveza tomasse nossos corpos enlaçados e me deixei ser totalmente dominado pela única mulher que amei em todos os meus oitenta e sete anos. Finalmente havíamos nos reencontrado! Há mais de vinte anos não nos víamos. Há mais de vinte anos eu chorava de saudade.
Zeca07 - 01h24
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